Durante muito tempo, saúde mental no ambiente corporativo foi tratada como uma questão exclusivamente comportamental. No entanto, evidências científicas demonstram que o ambiente físico exerce influência direta sobre a regulação do estresse.
O cortisol, principal hormônio associado à resposta ao estresse, é regulado pelo eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA). A exposição prolongada a ambientes estressores como ruído excessivo, iluminação inadequada, ausência de conexão com elementos naturais e falta de controle ambiental pode manter o organismo em estado de ativação crônica.
Além dos impactos cognitivos e emocionais, essa condição está associada à redução de desempenho, aumento de fadiga mental e maior risco de adoecimento ocupacional.
Essa discussão ganha ainda mais relevância quando relacionada às exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo a identificação e mitigação de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Luz natural e regulação do ritmo circadiano
A exposição à luz natural influencia diretamente o núcleo supraquiasmático do hipotálamo, responsável pela regulação do ritmo circadiano.
Estudos demonstram que trabalhadores expostos a maior quantidade de luz natural apresentam:
- Melhor qualidade de sono
- Redução de sintomas depressivos
- Maior desempenho cognitivo
Ambientes com iluminação natural adequada contribuem para melhor sincronização biológica e redução da ativação prolongada do eixo do estresse.
Biofilia e redução da resposta ao estresse
A Teoria da Recuperação do Estresse, proposta por Roger Ulrich, indica que a exposição a elementos naturais reduz a ativação do sistema nervoso simpático.
Pesquisas demonstram redução de:
- Frequência cardíaca
- Pressão arterial
- Níveis de cortisol
Em ambientes com presença de vegetação e vistas naturais.
A incorporação de estratégias biofílicas no ambiente corporativo está associada à melhoria do bem-estar psicológico e aumento da satisfação no trabalho.

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Acústica e carga cognitiva
Ruído crônico é reconhecido como fator de risco ocupacional. Ambientes com alta reverberação e ruído intermitente aumentam a carga cognitiva e elevam a resposta fisiológica ao estresse.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o ruído ambiental como um dos principais riscos ambientais à saúde.
Projetos que incorporam tratamento acústico adequado contribuem para redução da sobrecarga mental e melhoria da performance.
Sensação de controle e estresse psicológico
A literatura em psicologia ambiental demonstra que a percepção de controle reduz a ativação do eixo HPA.
Ambientes que oferecem autonomia espacial como: controle de iluminação, escolha de local de trabalho, espaços de refúgio reduzem marcadores fisiológicos de estresse e aumentam engajamento.
Esse fator é especialmente relevante quando analisado sob a ótica de riscos psicossociais no contexto organizacional.

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A relação com a NR-1
A Norma Regulamentadora nº 1 determina que as empresas implementem o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo a identificação de fatores que possam impactar a saúde física e mental dos trabalhadores.
Embora tradicionalmente associada a riscos físicos e mecânicos, a NR-1 também abrange riscos ergonômicos e psicossociais.
Nesse contexto, o ambiente físico passa a integrar a análise preventiva.
A arquitetura, quando fundamentada em evidências científicas, torna-se ferramenta estratégica de mitigação de risco organizacional.
