Durante alguns anos, a pergunta parecia inevitável: o escritório vai acabar?

Com a consolidação do trabalho remoto e, posteriormente, do modelo híbrido, muitas empresas chegaram a imaginar que o espaço físico perderia sua relevância. A realidade, entretanto, está apontando para outro caminho.

O escritório não acabou. Ele está mudando de propósito.

O que está acontecendo não é simplesmente uma redução da presença física, mas uma transformação profunda naquilo que esperamos de um ambiente de trabalho.

O escritório deixa de ser o lugar para onde as pessoas precisam ir para executar tarefas e passa a ser um espaço pensado para aquilo que o ambiente remoto nem sempre consegue oferecer: conexão, colaboração, criatividade, aprendizado, cultura e pertencimento.

Imagem gerada por IA

O que os dados globais mostram

A discussão sobre o futuro dos escritórios precisa ir além de percepções e opiniões. As pesquisas globais ajudam a construir uma visão mais consistente sobre essa transformação.

O Gensler Global Workplace Survey 2026, reúne dados de mais de 16 mil profissionais em 16 países e aponta que os trabalhadores continuam passando mais da metade da semana no escritório.

Esse dado é importante porque desconstrói uma das principais previsões feitas no início da transformação do trabalho: a de que o escritório se tornaria praticamente obsoleto.

O que vemos é diferente.

Casa, escritório e coworking passam a cumprir papéis distintos.

O escritório se consolida como um espaço estratégico de colaboração. A casa favorece momentos de concentração e trabalho individual. Os coworkings oferecem flexibilidade e proximidade.

Ou seja, não estamos necessariamente escolhendo um único lugar para trabalhar.

Estamos construindo um ecossistema de trabalho, no qual diferentes ambientes atendem diferentes necessidades.

Ninguém vai ao escritório apenas para responder e-mails

Essa talvez seja uma das maiores mudanças de mentalidade.

Se uma atividade pode ser realizada com eficiência em casa, não existe mais uma razão óbvia para deslocar uma pessoa até o escritório apenas para executá-la.

Então, por que as pessoas continuam indo?

Porque existem experiências que ganham força quando acontecem presencialmente.

Conexão humana

Interações espontâneas, conversas informais e encontros que fortalecem relacionamentos dificilmente são reproduzidos com a mesma naturalidade em uma sequência de reuniões virtuais.

Inovação

A troca presencial pode favorecer a geração de ideias, a cocriação e a construção coletiva de soluções.

Aprendizado

O escritório também é um ambiente de aprendizagem. A observação, a mentoria informal e a troca de conhecimento entre diferentes gerações acontecem muitas vezes de maneira não planejada.

Pertencimento

Cultura organizacional não é apenas aquilo que uma empresa comunica. É também aquilo que as pessoas vivenciam.

O espaço físico participa diretamente dessa experiência.

Nesse contexto, a própria inteligência artificial adiciona uma nova camada à discussão. À medida que ferramentas de IA assumem tarefas repetitivas, o valor das atividades essencialmente humanas — criatividade, colaboração, pensamento estratégico e tomada de decisão — ganha ainda mais importância.

E são justamente essas atividades que podem se beneficiar de ambientes físicos bem planejados.

Cinco tendências que estão redesenhando os escritórios

A transformação do trabalho pode ser observada a partir de cinco movimentos principais:

Pessoas no centro do projeto

Durante muito tempo, projetos corporativos foram organizados principalmente a partir da lógica da eficiência operacional: quantas pessoas cabem, quantas mesas são necessárias, qual é a metragem por estação de trabalho.

Essa lógica começa a mudar.

O escritório centrado nas pessoas considera aspectos como bem-estar, conforto, autonomia e saúde mental como elementos fundamentais do projeto.

Isso significa compreender que diferentes pessoas precisam de diferentes condições para desempenhar bem suas atividades.

Um profissional pode precisar de silêncio e concentração.

Outro pode precisar de interação constante.

Uma equipe pode demandar colaboração intensa.

Uma reunião pode exigir privacidade.

Uma chamada rápida pode precisar apenas de isolamento acústico.

O escritório do futuro, portanto, não deve oferecer um único tipo de ambiente.

Ele precisa oferecer possibilidades de escolha.

IA muda o trabalho, não elimina o escritório

A Inteligência Artificial está transformando a maneira como trabalhamos.

Tarefas repetitivas podem ser automatizadas. Processos podem se tornar mais rápidos. Informações podem ser analisadas com maior velocidade.

Mas isso não significa necessariamente menos necessidade de espaços físicos.

Pode significar o contrário.

À medida que a tecnologia assume parte das atividades operacionais, o escritório pode se tornar cada vez mais dedicado às atividades que dependem de competências humanas: criatividade, estratégia, colaboração, negociação, aprendizado e tomada de decisões complexas.

A pergunta deixa de ser:

“Quantas pessoas precisam de uma mesa?”

E passa a ser:

“Que experiências essas pessoas precisam viver para realizar seu melhor trabalho?”

Essa mudança de pergunta é fundamental para a arquitetura corporativa.

Um escritório, múltiplos propósitos

A flexibilidade deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade.

Um escritório contemporâneo precisa conseguir responder a diferentes momentos do dia e diferentes perfis de trabalho.

Isso pode significar a combinação de:

  • Áreas silenciosas, para foco profundo e atividades que exigem concentração;
  • Espaços colaborativos, para troca de ideias e cocriação;
  • Salas híbridas, capazes de conectar equipes presenciais e remotas;
  • Phone booths, oferecendo privacidade acústica para chamadas e reuniões rápidas;
  • Áreas sociais e de convivência, que favoreçam encontros espontâneos e fortalecimento dos vínculos.

A flexibilidade, nesse sentido, não significa simplesmente colocar móveis móveis no ambiente.

Significa criar um espaço capaz de se adaptar ao comportamento das pessoas.

Neurociência: projetar para o cérebro e para o comportamento

Se o ambiente influencia a forma como percebemos, sentimos e nos comportamos, a arquitetura pode ser uma importante ferramenta de bem-estar.

A neurociência aplicada à arquitetura amplia nossa capacidade de compreender essa relação.

Elementos aparentemente simples do espaço podem interferir na experiência cognitiva e emocional.

Biofilia

A presença de elementos naturais pode contribuir para a redução do estresse e para uma experiência ambiental mais positiva.

Iluminação

A luz natural está relacionada à atenção e ao humor, tornando a iluminação um componente essencial para a qualidade dos espaços de trabalho.

Acústica

O excesso de ruído pode gerar distração e fadiga cognitiva. Por isso, o controle sonoro passa a ser fundamental em ambientes corporativos contemporâneos.

Conforto térmico

Temperaturas inadequadas podem comprometer o conforto e a produtividade. Criar condições térmicas adequadas é parte essencial de uma boa experiência de trabalho.

O ponto central é que arquitetura não é apenas estética.

Ela influencia comportamentos, percepções e experiências.

O escritório como vantagem competitiva

Outra mudança importante está relacionada à visão estratégica do espaço corporativo.

O escritório comunica.

Ele comunica valores, cultura, posicionamento e a forma como uma organização enxerga seus colaboradores.

Em um cenário de disputa por talentos, a experiência proporcionada pelo ambiente físico passa a ter um papel relevante na atração e retenção de pessoas.

A pesquisa da JLL, mencionada na apresentação, aponta para uma expectativa crescente por experiências de escritório que combinem flexibilidade e bem-estar com a consolidação do modelo híbrido.

Isso ajuda a explicar uma mudança significativa:

o escritório deixa de ser percebido apenas como custo operacional e passa a ser compreendido como ativo estratégico de engajamento.

Nesse cenário, investir em arquitetura corporativa não significa apenas melhorar a aparência de um espaço.

Significa criar condições para que as pessoas queiram estar ali.

E o que podemos esperar até 2030?

O futuro dos escritórios será cada vez mais conectado à tecnologia, à sustentabilidade e à capacidade de adaptação.

Algumas transformações já começam a se desenhar.

Edifícios inteligentes

Sensores ambientais, dados e tecnologias de automação poderão permitir maior personalização dos espaços em tempo real.

Espaços adaptáveis

Layouts precisarão responder rapidamente às diferentes demandas de uso, permitindo que o mesmo ambiente assuma diferentes configurações.

Sustentabilidade integrada

A sustentabilidade tende a deixar de ser um elemento complementar para se tornar parte estrutural das decisões de projeto, integrando qualidade ambiental, tecnologia e responsabilidade.

Mas talvez a transformação mais importante não esteja em nenhuma dessas tecnologias.

Ela está na mudança de perspectiva.

O futuro não será sobre mesas. Será sobre experiências.

Durante décadas, projetamos escritórios pensando em estações de trabalho.

Agora, precisamos projetar pensando em experiências de trabalho.

Isso significa compreender pessoas, comportamentos, tecnologia, cultura e estratégia.

Significa criar espaços para que as pessoas possam pensar, criar, aprender, colaborar e se conectar.

O escritório do futuro não será necessariamente maior ou menor.

Ele será mais inteligente, mais humano, mais flexível e mais conectado às necessidades das pessoas.

E talvez essa seja a grande provocação para arquitetos, líderes e empresas:

Se as pessoas podem trabalhar de qualquer lugar, por que elas deveriam escolher estar no seu escritório?

A resposta para essa pergunta será, cada vez mais, construída pela arquitetura.

By Amanda Siqueira Marmo

Arquiteta e Urbanista formada pela FMU, com 17 anos de experiência em projeto de arquitetura, especialista em neurociência aplicada à arquitetura pela Neuroarq Academy, Embaixadora e Consultora da Academia Brasileira de Neurociência Aplicada à Arquitetura (neuroarq), sócia da Com.Tato Arquitetura e MGE Engenharia Inteligente, atualmente faz especialização em Arquitetura Sustentável pela Ugreen Academy

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